Efeito analgésico da bromelina do abacaxi é desvendado

Efeito analgésico da bromelina do abacaxi é desvendado

Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP – Velha conhecida da indústria farmacêutica, a
bromelina – enzima encontrada no abacaxi – acaba de ter seu mecanismo de ação analgésica
desvendado.
Pesquisadores da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp),
em estudo apoiado pela FAPESP por meio de um Projeto Temático, descobriram que a
bromelina é responsável pela liberação de encefalina – considerada uma morfina endógena – a
partir de sua proteína precursora, a proencefalina, que também é encontrada na parede do
intestino delgado.
No encéfalo, a liberação de encefalina a partir da proencefalina é bem conhecida pela ciência.
Ela ocorre pela ação de proteases específicas – enzimas que quebram proteínas e peptídeos

–presentes no tecido cerebral e é uma rota importante para o controle da dor. A encefalina
age em receptores opioides, como a morfina ou a encefalina.
Os pesquisadores da Unifesp verificaram, a partir de testes em camundongos, que, ao ingerir a
bromelina – encontrada na polpa, mas principalmente no talo do abacaxi –, a enzima libera
encefalina, digerindo a proencefalina presente também na parede do intestino delgado. Dessa
forma, a encefalina gerada no processo entra na corrente sanguínea e desempenha ação
analgésica periférica.
A descoberta abre perspectivas para o estudo da interação entre o conteúdo enzimático do
bolo alimentar (e da microflora intestinal) com a parede do intestino na liberação de
substâncias bioativas.
Relação entre intestino e cérebro
Os efeitos analgésicos do abacaxi são conhecidos há séculos pelos indígenas nas Américas.
Tanto que, conta-se, exemplares da fruta usada para a redução de dor e na cicatrização de
ferimentos foram levados para a Europa pelos primeiros navegadores europeus que chegaram
ao continente americano.
Séculos depois, verificou-se que a bromelina agia não apenas contra a dor, mas também tinha
atividade anti-inflamatória e atuava na quebra de proteínas. Isso permitiu o desenvolvimento
de diversos produtos a partir do abacaxi pelas indústrias farmacêutica e alimentícia, para fins
digestivos, analgésicos, cicatrizantes ou para amaciar carnes.
Foi observada também redução na capacidade dos animais em sentir dor, com o efeito
máximo detectado três horas após a administração oral de bromelina (extraída do talo do
abacaxi) na dose de 3 mg/kg.
Por outro lado, a proencefalina contém cinco sequências de encefalina flanqueadas por pares
desses aminoácidos. Após a hidrólise dos aminoácidos, a encefalina é liberada, o que foi
confirmado a partir da síntese química de fragmentos da proencefalina tratados com
bromelina.

Fonte: Fapesp